A Sagrada Escritura menciona
apenas um pecado que, nesta vida e na vida futura, é imperdoável: a blasfêmia contra
o Espírito Santo. Não há referência a isso no Antigo Testamento, embora
[devamos nos lembrar que] pelos pecados cometidos “com a mão levantada” (Nm
15.30), nenhum sacrifício tenha sido instituído na lei, porque colocava de lado
a própria lei (cf, Hb 10.28). Jesus é o primeiro a falar dele (Mt 12.31; Mc
3.29; Lc 12.10). Certa vez, quando curou completamente um endemoninhado que
também era cego e mudo, as multidões ficaram tão maravilhadas que reconheceram
Jesus como o filho de Davi, o Cristo. Como resultado, os fariseus ficaram tão enfurecidos
que disseram não somente que ele expulsava demônios pelo príncipe dos demônios,
mas também que ele mesmo estava possuído pelo diabo (Mc 3.22). Essa acusação
foi motivada somente pelo ódio, nascendo de uma hostilidade pura, consciente e
intencional. Em Mateus 12.25-30, Jesus também demonstra a verdade disso: um
reino dividido contra si mesmo não pode permanecer. Satanás não pode expulsar a
si mesmo, por isso a expulsão de Satanás é prova de que o reino de Deus veio
sobre eles. Jesus expulsou o diabo pelo Espírito de Deus.
A antítese entre Jesus e os fariseus, portanto, alcançou, aqui, seu momento de máxima tensão. Eles disseram que Jesus estava possuído, se surpreenderam pelo poder do diabo, e, assim, estabeleceram o reino do diabo. Jesus declarou que ele é o Cristo, que expulsa o diabo pelo Espírito de Deus, e, assim, traz o reino de Deus sobre eles. Nesse cenário e motivado por essa ocasião, falou sobre a blasfêmia contra o Espírito Santo como o pecado imperdoável. Quer as pessoas pensem que, nesse momento, os fariseus realmente cometeram esse pecado quer neguem isso (entre outras coisas porque o Espírito ainda não havia sido derramado, Jo 7.39), o contexto deixa claro que o pecado contra o Espírito Santo tem de consistir em uma blasfêmia consciente, deliberada e intencional – claramente reconhecida, embora odiosamente atribuída ao diabo – revelação da graça de Deus em Cristo pelo Espírito Santo.
A blasfêmia contra o Espírito
Santo, portanto, não consiste simplesmente em incredulidade, nem em resistir e
ofender o Espírito Santo em geral, nem em negar a personalidade ou a divindade
do Espírito Santo, nem em pecar contra a inteligência divina, mas fazê-lo até o
fim sem o mínimo remorso. Nem é apenas um pecado contra a lei, mas também um
pecado especificamente contra o evangelho em sua mais clara manifestação. Há
muita coisa, portanto, que o precede: objetivamente, uma revelação da graça de
Deus em Cristo, a proximidade de seu reino, uma obra poderosa do Espírito
Santo; e, subjetivamente, uma iluminação e convicção da mente tão intensas e
poderosas que não se pode negar a verdade de Deus e tem-se de reconhecê-lo como
ser divino. Nesse caso, ele não consiste em dúvida a respeito da negação dessa verdade,
mas em uma negação que contradiz a convicção da mente, a iluminação da
consciência e as intuições do coração. Ele, então, consiste em uma atribuição
consciente e deliberada daquilo que foi claramente percebido como obra de Deus
à influência e atividade de Satanás, isto é, na deliberada blasfêmia contra o
Espírito Santo, uma declaração desafiadora de que o Espírito Santo é o espírito
do abismo, de que a verdade é uma mentira, de que Cristo é o próprio Satanás.
Sua motivação, então, é o ódio consciente e intencional contra Deus e contra
aquilo que é reconhecido como divino. Sua essência é pecado em sua manifestação
máxima, a revolução completa e consumada, colocando Deus no lugar de Satanás e
Satanás no lugar de Deus. Seu caráter não é mais humano, mas demoníaco. Embora os
demônios não cometam esse pecado nessa forma particular, já que a graça de Deus
não foi revelada a eles, Cristo não assumiu sua natureza, o Espírito Santo não foi
derramado sobre eles e o reino de Deus não veio sobre eles, o pecado demoníaco
tem o mesmo caráter da blasfêmia contra o Espírito Santo. Também por essa
razão, ele é imperdoável.
A graça de Deus, de fato, não é pequena demais e
impotente demais para perdoá-lo, mas também no campo do pecado existem leis e
ordenanças que Deus implantou e sustenta. E, a respeito desse pecado, a lei
consiste no fato de que ele exclui todo arrependimento, cauteriza a
consciência, endurece definitivamente o pecador e, dessa forma, torna seus pecados
imperdoáveis.
Fora dos Evangelhos, não há em
nenhum lugar da Escritura nenhuma menção direta desse pecado, mas esse ato de
blasfêmia contra o Espírito Santo pode ser cometido em várias circunstâncias. Por
isso lemos em Hebreus 6.4-8; 10.25-29 (c/ 2.3; 4.1; 12.15-17) que “aqueles que
uma vez foram iluminados, e provaram o dom celestial, e se tomaram participantes
do Espírito Santo”, retomando ao Judaísmo, desdenham, crucificam e expõem o
Filho de Deus à ignomínia, profanam o sangue da nova aliança e afrontam o
Espírito da graça, não podem ser renovados para arrependimento. Em 1 João 5.16,
semelhantemente, encontramos um testemunho com o propósito de mostrar que há um
pecado que, em virtude de sua própria natureza, necessariamente conduz à morte
sem conversão e pelo qual João não diz, isto é, não ordena, que se deve orar.
Essa oração, se fosse permitida, seria infrutífera. No contexto da carta de
João como um todo, é provável que ele esteja pensando em uma firme e deliberada
negação de Cristo como o Filho encarnado de Deus. Portanto, em ambas as
passagens, estamos lidando com pecados que deixam a pessoa completamente
endurecida e são, portanto, inerentemente imperdoáveis. Factual e
materialmente, eles coincidem com o pecado de blasfêmia contra o Espírito
Santo.79
NOTA:
79. Sobre a abundância de
literatura sobre esse assunto, devo mencionar apenas o seguinte: T. Aquino, Summa
theol., II, 2, q. 14, art. 1; P. Lombardo, et. a i, Sent.; II, dist. 43; C. Vitringa, Doctr. Christ., II, 378; J. G. Walch,
Bibliotheca theologica selecta, 4
vols. (Jenae: vid. Croeckerianal, 1757-65), I, 8 8,254; P. Schaff, Die Sunde wider
den heiligen Geist und die daraus gezogenen dogm atischen und ethischen Folgerungen
(Halle: Lippert, 1841); J. Müller, Christian Doctrine of Sin, II, 596; C.
Clemen, Die christliche Lehre von der Sunde, I, 89-100; A. von Oettingen, Luth.
Dogm ., II, 526ss.
Autor: Herman
Bavinck
Trecho extraído da Dogmática Reformada do autor, volume 3,
pág 160-161. Editora: Cultura Cristã